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Sofá


Provavelmente um instrumento de madeira foi uma das nossas primeiras ferramentas enquanto espécie. Nossos parentes chimpanzés usam galhos como ferramentas para cutucar, cocas, etc. A madeira ao contrário da pedra e do metal é um material generoso e gentil. Gentil pois é agradável ao tato, não é fria, olhá-la já transmite calor e vida. É agradável também  ao olfato, geralmente gostamos do cheiro de serragem, um aroma que também é agradável as abelhas. Sentimos maior conforto em um ambiente com paredes amadeiradas do que metalizadas. É um material generoso pois admite que seja trabalhado em muitos níveis de proficiência, possibilita alto grau técnico e de precisão, como carpintaria náutica,  mas também permite que alguém com apenas um serrote, pregos e martelo  construa algo, é um material de acesso e possibilidade de construção a todos. Tem vocação para ser renovável, facilmente biodegradável e com baixa energia incorporada quando comparado a outros materiais. 


Mesmo com estas características excepcionais geralmente a presença do elemento madeira passa despercebida. Está nos palitos de fósforo, nos móveis, nas vigas do telhado, em nossos lápis, em folhas de papel, em notas de dinheiro,  em rolos de papel higiênico...  A demanda por este materiai cresce ao a ano e mesmo sendo de área reflorestada com esta finalidade, demanda grandes extensões de solo, produz desertos verdes, áreas de centenas de hectares com apenas uma espécie, geralmente eucalipto e pinus o que altera paisagens inteiras como os Campos de Cima da Serra, Bioma Pampa,  reservas naturais importantes como a Reserva do Taim e Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no sul do Brasil, lugar do mundo em que as duas espécies são exóticas e são as duas principais espécies florestais plantadas para uso na indústria madeireira. O baixo custo deste material, alta disponibilidade e a desconexão mental gerada pela falta de rastreabilidade faz com que a madeira seja banalizada. Descartada com facilidade, a desconsiderar toda a demanda ambiental e temporal que se faz necessário para a produzir. Uma tábua de pinus de 25 cm de largura,  árvore de crescimento mais rápido e com menor valor de mercado, necessita cerca de 12 anos para ser produzida. Uma árvore que ocupará uma área por toda esta extensão de tempo e que, no sul do Brasil, não se relaciona com espécies do entorno, vendida a menos de 20 reais a tábua, uma externalidade marcante.  Resgatar estas conexões é tarefa importante e urgente. Recuperar o vínculo com marcenaria é parte desta reconexão. A construção deste sofá seguiu este pensamento. 



O móvel foi construído sob medida como parte do projeto A Casa. Foi utilizado uma tábua e eucalipto de 2,70 x  0,25m. Para a sustentação do acolchoado, empregou-se um  meio palete que foi descarte das obras da ciclovia na cidade de Maquiné, RS. A ideia que norteou o design inicial teve influências de dois livros, Diseño Ecológico 1000 ejemplos de Rebecca Proctor, editora Gustavo Gili;  Bauhaus 1919-1933 de Magdalena Droste, editora Taschen e  A arte de projetar em arquitetura, de Ernst Neufert, editora Gustavo Gili. Usou-se as seguintes ferramentas: uma serra circular manual, uma tupia, furadeira, fita métrica, esquadro, dois sargentos e um lápis.  Deu-se prioridade para ferramentas de produção nacional. Tempo de construção total foi de dois turnos, cerca de 7 horas. Os parafusos utilizados foram em sua grande maioria de retirados de móveis de aglomerado abandonados.   A almofada é de um reaproveitamento de um tapete e dois colchonetes. O custo total  dos materiais foi de 18,76 reais. Um sofá com tamanho similar, porém feito de compensado, custaria no mínimo trinta vezes mais.  

A questão custo aqui não questionar a profissão de marceneiro, é necessário um saber fazer que demanda prática, vivência  que  deve ser recompensado. O que ocorre hoje é que grande parte dos móveis vendidos a preços elevados provém de uma produção  em escala. Muitos deles produzidos com  chapas de madeira madeiras laminadas com  uso de colas e baixa resistência ao desmonte e umidade, isto é, um sistema de produção que ao mesmo tempo extingue uma profissão e demanda um contínuo consumo, pois cada vez é mais raro pessoas permanecerem com móveis por períodos maiores do que dez anos. 





Resgatar o fazer é resgatar uma conexão de respeito, não é um atraso ou volta para o passado, é um pensamento prático,  crítico ao momento presente, orientado para o futuro. É possível ir para além da mera crítica, ser propositivo de muitas maneiras. Até mesmo com um sofá.